sexta-feira , 24 novembro 2017
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There are moxes for every taste

Dan Frazier é o cara, mas não admite

Las Vegas – Dan Frazier é um dos artistas mais conhecidos de toda a história do Magic: The Gathering. Afinal, cinco das “Power Nine” foram pintadas por ele. Mais da metade. Mas ele não parece dar muito valor a isso. Mostrando seus estudos mais recentes com naturezas-mortas, ele afirma, sem pestanejar, que “isso é muito melhor do que as porcarias que eu desenhei para o Magic”. Essa auto-depreciação é característica do bom-humor do artista que veio ao Brasil no GP Rio, em 1998, e que sofreu muito com o calor. “Aquele calor não é normal. Quando eu estava assinando cartas no Rio, eu estava com um saco de gelo de cinco quilos no meu colo. Não tinha outra forma de suportar o calor de 43 graus!”

Carisma e sinceridade. Dan Frazier vai direto ao ponto

Frazier tem boas lembranças do Magic, mas diz que não pintará mais cartas para o jogo. “Eles conseguiram 96 cartas de mim (o Gatherer diz que são 153), está mais do que bom. Esses novos artistas são muito melhores do que eu. E, se você disser o contrário, está enganado”, afirma, sem deixar chances para réplicas. Apesar de não desenhar mais para o jogo, ele continua indo a eventos como GPs e Pro Tours, desde que sua esposa concorde. “Ela é quem decide. Se ela quiser ir, nós vamos. Caso contrário, não”. Então, um eventual retorno ao Brasil passa pelo aval dela. E pelo dinheiro que ele consegue angariar assinando as cartas que seus fãs enviam para ele, e ele autografa por dois dólares cada. De acordo com o artista, é esse dinheiro que permite a ele viajar para eventos de Magic. “Estar aqui, assinar, vender por esses dias de GP, não paga os meus custos com hotel, comida, essas coisas, sabe?”.

Fora o calor, Dan Frazier tem apenas boas lembranças do Brasil. “Não posso falar muito sobre o Brasil para não ofender os outros países. Mas a praia de Ipanema, com mulheres maravilhosas, o rodízio de carnes, aqueles drinks… dançar à noite. Tudo incrível. E a quantidade de cafeína? O que é aquilo? Eu tomei alguma coisa que me deixou acordado por dois dias seguidos. Guaraná, foi isso!”, diverte-se enquanto lembra. Outra coisa que ele lembra é de quem possibilitou a diversos artistas de Magic estarem ali, dividindo com ele um espaço em Las Vegas, apresentando seus trabalhos, vendendo sua arte: Jesper Myfors. “Ele também está aqui, em algum lugar. Foi ele, ao insistir que os nomes dos artistas aparecessem nas cartas, que fez isso aqui possível. Caso contrário, não seríamos ninguém”.

Sua arte preferida no Magic é este pântano de Investida

Frazier lembra-se quando conheceu a Wizards of the Coast. Eram quatro pessoas trabalhando em uma garagem. Peter Adkinson, o fundador, Richard Garfield, game designer que criou Magic, Jesper Myrfors, diretor de arte, e uma mulher que ele não se recorda o nome. Myrfors o encontrou em uma GenCon e o convidou para fazer alguns trabalhos para a Wizards, antes do Magic. Já para o card game, ele recorda que o pagamento era 100 dólares por carta. “Cinquenta em dinheiro e o resto em ações e royalties. Eles estavam desesperados… não! EU estava desesperado! Naquela época, isso não era nada. Porque ações e royalties de nada é igual a nada. Eventualmente passou a valer um monte. No fim, tudo correu bem. Magic foi muito bom para mim. De verdade”.

Houve uma ocasião em que sua mulher telefonou para ele, dizendo que tinha chegado uma correspondência da Wizards of the Coast em seu nome. “Abra, por favor, pedi a ela. Então ela me disse que era um cheque referente aos royalties do Magic, no valor de 4,6 mil dólares… eu disse… o quê! 4,6 mil dólares por isso? É dinheiro de graça! Aí liguei para o Jesper, que me respondeu, dizendo que isso não era nada, que tinha artista que ganharia mais de 90 mil dólares em royalties”, conta. “Quando perguntei quem, ele riu e me respondeu: você, seu tolo!”.

Dan fez esta carta inspirado na mão de sua mulher

Relação contínua com a arte

Humilde, o artista conta que vive estudando arte, e que agora não pinta imagens, mas estuda e pinta a luz dos objetos. Questionado se há algum objetivo na arte, ele responde sem pestanejar: “Você me pergunta qual o sentido da vida. Para cada pessoa, arte tem um significado. Há pessoas diferentes, há diferentes tipos de arte. Para alguns, há um significado filosófico profundo, enquanto outros só querem fazer alguns trocados. Às vezes, se você é ilustrador, tenta satisfazer quem te paga. Para mim, quando eu pinto, tento aprender mais sobre os segredos da pintura”, explica Frazier, que ultimamente tem se dedicado à naturezas mortas.

“Estou pintando as naturezas mortas, então faço as coisas brilharem, trabalho na textura. Tento descobrir esses segredos sozinho. São coisas que outros artistas, há centenas de anos, descobriram. Isso é fascinante. Por que fazer isso ou aquilo? E é nisso que trabalho agora. Em fazer as coisas brilharem”.

Dan Frazier fez estudos sobre como pintar como os antigos mestres, como Da Vinci. “Como ele pintaria grisé, o underpainting, os verdes… como ele fez isso? É sobre valores, óleos, todas as coisas mágicas que ele fazia antes da invenção da câmera”. Para o artista, o segredo está em saber como enganar as pessoas com sua arte. “Nosso trabalho é ilusão, certo? Da mesma forma que uma câmera, que mente para nós ao tirar uma foto, porque ela não mostra a realidade, nós mentimos para vocês. Apresentamos nosso trabalho, que é uma ilusão, e usamos truques para enganar o seu cérebro”, define, lamentando não conseguir fazer o mesmo com o seu gato.

“Veja, eu engano você, mas não o meu gato”, fala, apontando para nosso enviado especial Fausto de Souza, que bateu esse longo e agradável papo com Frazier. E não engano meu gato porque ele não vive sob nossas regras. Ele vê um muro de cores, mas para ele aquilo não interessa. Porque não vai alimentá-lo, não vai de encontro aos interesses dele. Gatos não se importam”, ri.

Outro artista que ele admira é Rembrandt, obviamente. O trabalho de luz e sombra do holandês é a inspiração que ele tem. “Eu copio o trabalho dele e, ao fazer isso, eu aprendo sempre alguma coisa sobre como ele fazia sua arte. Mas não esqueça, ele era um idiota! Não misturo o trabalho dele com a personalidade”, alerta, lembrando o fato dele abandonar a namorada grávida em um sanatório, para evitar o escândalo na sociedade da época.

“Era só um papel marmorizado que eu cortei…”

Voltando ao Magic, Frazier segue seu trabalho de tirar a importância de sua arte no jogo. Há uma combinação de cartas que sempre chamou a atenção dos fãs mais antigos. O fundo da Mox Jet “vaza” na carta Forcefield. Qual o significado disso? “Nada demais. É lixo”, destrói o artista, que conta que pegou um papel texturizado em mármore, cortou um pedaço e jogou a Mox Jet em cima. E, no Forcefield, aparece a pessoa empurrando o fundo da Mox. É só isso, nada demais”.

 

Sobre Paulo de Tarso

Jornalista de formação, vive a (e de) escrever. Joga (mal) Magic desde 1995, e encontra diversão para compensar a falta de talento para o jogo utilizando cartas e decks que não são muito usados por aí. De vez em quando flerta com algum relativo sucesso ao beliscar um top 8, mas não é muito afeito às mesas iniciais. Atualmente joga Legacy e alguns drafts.

4 Comentários

  1. Mas que figura esse cara!
    Obrigado por compartilhar a história!

  2. Mais um ótimo artigo! Adoro quando tratam sobre outros aspectos do Magic, além do jogo, como os artistas e suas ilustrações. Parabéns!!

  3. Show de entrevista. Continuem assim

  4. Show a entrevista, quero ver a do Myfors!!!

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