sexta-feira , 24 novembro 2017
enpt
Home / Entrevistas / Iria desistir na primeira derrota. Foi campeão invicto
O sorriso do campeão. Foto: wizards.com

Iria desistir na primeira derrota. Foi campeão invicto

Por Fausto de Souza (colaborou Artur Villela, o Tutuzinho)

Las Vegas – Thiago Saporito quase não foi ao GP Las Vegas, comprou a passagem em cima da hora, e quase dropou do GP Selado porque achou sua pool de cartas horrível. Decidiu jogar, porque não viu sentido em desistir antes sequer do primeiro jogo. Mas, por via das dúvidas, inscreveu-se no GP Modern, que começaria no dia seguinte. Na sua cabeça, o GP Selado acabaria em breve, após sua primeira derrota. O torneio terminou e a derrota não veio. Pelas palavras do campeão do GP Selado do último final de semana, dá pra notar que ele é um sujeito que nunca para de cobrar desempenho de si mesmo. Nunca está satisfeito, sempre buscar melhorar. E foi essa insistência do garoto que começou a jogar no colégio, com seu irmão, que o levou ao topo do pódio nos EUA. De um jogador “horrível”, segundo ele mesmo, até um profissional, foram 12 anos de frustrações e alegrias. Tudo proporcionado por esse jogo de cartas que ele já pensou em largar mais de uma vez. Confiram o bate-papo entre Fausto, Tutuzinho (um dos grande jogadores que temos no Brasil) e Thiago Saporito.

Fausto – Vamos pegar a história desde o início… como foi a viagem? Foi tranquila? Você estava se sentindo bem, era o formato desejado, você queria vir pra Las Vegas?

Saporito – Eu não queria vir. Comprei a passagem há duas semanas. Eu queria vir pra Las Vegas e Cleveland (GP que acontece em 23 e 24 de junho, Selado de times), mas não arrumei time. Aí, quando consegui algo parecido com um time, a passagem já estava muito cara. Aí decidi vir só pra Las Vegas. Tomei essa decisão porque pensei: “São três GPs. Vai que dou sorte em um”.

A viagem foi muito cansativa. Fiz uma escala de seis horas, então foram 19 horas só pra chegar aqui. E isso foi na quarta-feira, dia anterior ao primeiro GP. Aí foi aquela correria pra achar um deck Legacy, porque eu não tenho cartas Legacy. Postei no Facebook e no Twitter que eu precisava de dual lands, e consegui a dual que faltava um pouco antes da quarta rodada, em cima da hora. E não fui nada bem no Legacy, como esperado, porque eu sou horrível no formato, nunca joguei na minha vida.

Eu joguei de Delver of Secrets porque pensei que seria um deck mais fácil de jogar, mas não era nada fácil, eu sabia que estava errando bastante. Legacy não é a minha praia. Aí eu entrei no selado, que foi onde deu tudo certo. Eu não esperava ir bem, porque selado tem muito da sua pool. Se você abre uma pool que não acha boa, você não acredita no deck, acha que não vai bem, mas deu tudo certo, e eu acabei ganhando o torneio.

As coisas não deram muito certo na quinta-feira, mesmo com o Delver flipado

Fausto – Ok, você deixou o Legacy e foi pro Selado. Aí, abriu a pool. O que você viu?

Saporito – Ah, eu vi um monte de carta ruim juntas e fiquei totalmente decepcionado. Eu montei o deck e fui me inscrever no GP Modern, porque eu acreditava que iria dropar no Selado. Já tava procurando um deck Modern emprestado. Mas aí eu falei pra mim mesmo: “Vou dropar depois da primeira derrota, porque não faz sentido desistir sem perder nenhum jogo. Aí eu continuei ganhando, tive um empate no quinta rodada e ganhei as outras quatro. Ali eu decidi que não iria mais jogar o Modern, ia me concentrar no draft. Eu achei que, como já tinha feito um Top 8 em um GP Selado, em Richmond (jogado em 7 e 8 de maio), eu já estava dominando bem o draft dessa série. Eu estava meio confiante. O problema é que eu só sabia, e ainda só sei, jogar com três cores no formato, que são preto, vermelho e branco, as cores do Mardu.

Alguém passou essa belezinha para ele no draft

Aí no primeiro draft eu fiz um BW, me passaram uma Liliana, Death’s Majesty, e meu deck ficou muito bom. E, no segundo draft, me passaram um Glorybringer, que me carregou bastante. No Top 8 eu abri uma Liliana’s Mastery, e me passaram uma Insult // Injury, que é uma das vermelhas mais fortes, e me passaram um demônio (Archfiend of Ifnir), que é uma das raras pretas mais fortes. Aí deu tudo certo e eu consegui canhar o torneio.

Fausto – Teve algum momento, ali no Top 8, que é sempre tenso, você está diante da câmera, que achou que não ia dar, ou você estava tranquilo? Como foi aquele momento no Top 8?

Saporito – Ah, no Top 8 e no Top 4 os jogos foram bem tranquilos, não passei dificuldade nenhuma. Mas, no primeiro jogo da final eu dei um pouco de azar, porque não vieram os terrenos. Veio tudo na ordem errada e eu perdi bem rápido, sem fazer nada. No segundo jogo eu também tive problemas com terrenos. Acredito que eu tinha três cartas custo cinco na mão e quatro terrenos na mesa, e já era turno cinco ou seis, eu estava só tentando segurar o jogo, pra poder jogar as cartas. Comprei o terreno, mas mesmo assim o jogo não estava bom. Aí ele fez um erro – eu só vi isso na câmera, online, depois. Teve um turno em que ele não baixou terreno, e por isso não pode ativar um artefato, e foi o turno em que consegui virar o jogo. Eu fiz as raras e ele não conseguiu ativar o artefato (Edifice of Authority)para impedir meu demônio bater, porque faltou a mana. Aí dei muito dano nele, matei as criaturas… ganhei a partida ali. O jogo três foi muito tranquilo. Ele não fez terrenos, foi a vez dele não fazer nada, e eu ganhei bem fácil.

Fausto – E agora, daqui pra frente, qual o seu próximo objetivo? Já pensou o que vai fazer?

Saporito – Eu vou pra Kyoto, eu queria pegar Platinum de novo, mas eu estou bem longe. Tenho 43 pontos, são precisos 52. Não sei se vocês sabem, mas fui Platinum por dois anos seguidos, queria ser pelo terceiro. Eu estava muito desacreditado, comecei a temporada muito mal. Antes do GP Richmond, que eu fiz Top 8, eu não era nem Gold, tinha 23 pontos, e faltavam 2 Pro Tours. Eu já achava que seria sorte se eu conseguisse o Gold, porque são 35 pontos. Aí fiz Top 8 no GP e 10-6 no Pro Tour (Nashville), o que me garantiu o Gold. No GP Santiago (Standard, nos dias 20 e 21 de maio) eu fiz 12-3, o que me deu mais três Pro Points, e ganhei aqui, o que me garante oito pontos. Tenho 43 no total. Então eu preciso ganhar o GP Kyoto (Selado, de 21 a 23 de julho) ou fazer 10-5 no Pro Tour Kyoto (28 – 30 de julho), o que me garantiria o Platinum, que é o que eu quero que aconteça.

Villela – Você falou de pegar o Platinum, que eu acho que está bem menos distante do que você faz parecer, considerando o quanto você joga, mas vamos imaginar que, poxa, as coisas não deram certo e você não conseguiu o Platinum. O que o Thiago espera para um ano Gold?

Saporito – Mesmo sem o Platinum, vou acabar viajando para GPs aleatórios, tipo esse em Las Vegas. Eu normalmente só viajo para GPs pré Pro Tour que, mesmo sendo Gold, eles bancam o voo. Aí eu posso jogar o GP e o Pro tour, sem problemas. Eu vou continuar jogando GPs nos EUA, principalmente se houver dois juntos. Eu gosto de viajar para jogar dois ou três, como já fi esse ano. Então é continuar jogando para conseguir Gold, Platinum, e uma vaga para o Mundial. Porque o meu sonho é conseguir ir bem no Mudial, que eu joguei duas vezes e não consegui chegar ao Top 4. Fiquei em oitavo e nono, o que não era o que eu esperava… mas é isso aí, mesmo se eu não conseguir o Platinum, vou continuar jogando, mes dedicando.

Fausto – Gostaria de deixar uma mensagem final pra quem está lendo? Praqueles que estão começando, que querem evoluir seu jogo, e quem sabe disputar um PPTQ, começar a ingressar no circuito profissional. O que é preciso fazer?

Saporito – É meio irônico, porque eu sempre falo que vou desistir, parar de jogar, mas continuo sempre jogando. Se você se dedica, se prepara, uma hora você ganha. Nem que seja o seu primeiro Friday (Friday Night Magic), o seu primeiro PPTQ. Então, é tudo questão de tempo, mesmo. Sempre se dedique o máximo. Mesmo que você esteja perdendo, não desista, porque uma hora as vitórias vão chegar.

Villela – Fala pra gente há quanto tempo você joga Magic, quanto tempo demorou para você conseguir seu primeiro resultado, um pouco da sua história no jogo.

Saporito – Comecei a jogar com o meu irmão na escola, em 2005, 2006, e a gente era bem ruim. Em 2006, mesmo, eu joguei meu primeiro Nacional. Foi uma realização pra mim, mas nada além disso, porque eu fui muito mal. Aí em 2008… porque 2006 e 2007 eu não fiz mais nada, eu só perdia, em 2008 eu fui jogar meu primeiro GP, em Buenos Aires, e acabei ficando entre os 16 melhores. Na época, só dava a vaga, não davam passagem, mas fui pro meu primeiro PT em 2008, e não fui nada bem. Eu não fiz nem Day 2… eu não me dediquei. Sei lá, eu também não era muito bom. Aí, em 2010, eu voltei a jogar um PT, aliás, dois, e então fiquei muito tempo só apanhando. Até que, em 2014, eu consegui ganhar um PTQ, que e deu vaga pro PT Honolulu, que eu fiquei em quarto lugar, e isso me permitiu ir a vários GPs. Então, eu jogo todos os Pro Tours de 2014 pra cá, consegui pegar o Platinum dois anos, e agora estou tentando o terceiro. Mas eu comecei bem de baixo, bem ruim. Jogo há muito tempo pra chegar aonde estou agora, depois de 12 anos, sou um profissional que vive do Magic.

Sobre Paulo de Tarso

Jornalista de formação, vive a (e de) escrever. Joga (mal) Magic desde 1995, e encontra diversão para compensar a falta de talento para o jogo utilizando cartas e decks que não são muito usados por aí. De vez em quando flerta com algum relativo sucesso ao beliscar um top 8, mas não é muito afeito às mesas iniciais. Atualmente joga Legacy e alguns drafts.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *