segunda-feira , 16 outubro 2017
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Preparativos para um GP legacy: O que esperar dos combos?

Disclaimer:

Este é um artigo de cunho exclusivamente quantitativo e matemático, mas não se assuste, não serão apresentadas fórmulas complexas nem cálculos quilométricos. Apenas alguns gráficos e conceitos básicos que nos ajudarão a prever o incerto que nos espera nos próximos capítulos deste curioso formato que é o Legacy.

O problema:

O metagame está mudando. Miracles, que era dito um grande xerife do formato, o qual mantinha diversos baralhos com combos degenerados sobre controle, não existe mais. Com um cenário como este, é uma preocupação real da comunidade do Legacy sobre como lidar com o problema dos combos. Tal problema se agrava para aqueles jogadores que optam por jogar de decks sem a cor azul, e consequentemente sem Force of Will, que é tida como um dos principais meios de combater baralhos “unfair”.
Em contrapartida, tal cenário apocalíptico de caos instaurado e da ditadura do combo não tem se concretizado com tanta clareza. Diversos artigos têm apontado que entre os 5 principais arquétipos (Control; Midrange; Agro; Tempo e Combo), o último da lista não tem tido tanta representatividade em top 8, muito menos nos lugares mais altos dos pódios. Estudos relatados pelo Eternal Magic mostram uma representatividade pouco inferior a 29% deste arquétipo em colocações significantes, tanto em torneios nacionais (CLC, Alpha legacy, Liga mineira de legacy), quanto internacionais (Qualifies GP Vegas; 4k Channel Fireball, Classics SCG). Muito pelo contrário, a saída do Miracles do formato resultou em um crescimento expressivo do número de estratégias de Grixis delver/pyromancer, que tipicamente têm bons resultados contra baralhos unfair.
Apesar deste indicativo com a amostra que temos, é de senso comum que o sucesso em duelos com baralhos de combo, geralmente pouco interativos, depende do quão bem equipada uma lista é para interagir com ferramentas significantes contra estes decks no sideboard. Em outras palavras, uma vez que a maior parte dos baralhos tidos como “fair” possuem uma densidade maior de ferramentas de interação com o campo em suas listas principais, eles encontram dificuldade de combater efetivamente com combos sem cartas presentes no sideboard. Dentre os exemplos mais comuns, podemos citar Flusterstorm, Surgical extraction, Aethersworn canonist e Sanctum prelate. Por este motivo, ignorar a presença de combos no metagame é se expor a riscos de matchups extremamente polarizadas.
Como agravante para o problema acima, estamos na iminência de um grande GP Legacy, possivelmente o maior que teremos no ano. Em um ambiente incerto, temos que nos perguntar: o quanto devemos efetivamente temer e nos preparar para combos em um torneio grande como o GP Vegas? O que esperar em termos de velocidade desses baralhos?

Metodologia:

Para responder tais perguntas este artigo propõe uma projeção de um modelo binomial baseado em estatísticas retiradas de campeonatos do MAGIC online da semana dos dias 3 a 10/6/2017. A amostra do Magic Online foi escolhida devido a sua grande representatividade numérica e presença de jogadores profissionais no ambiente, nos permitindo realizar testes estatisticamente relevantes com uma população relativamente similar ao que se espera de um GP.
Simplificando os termos, objetivou-se aqui projetar a partir de um modelo binomial, qual a probabilidade de um jogador, dentro de um ambiente incerto (baseado no Magic Online), de ser pareado contra o deck de combo ao longo das 15 rodadas do torneio, e uma vez pareado, qual a perspectiva da partida ser decidida nos primeiros turnos de jogo. Basicamente, um modelo binomial é uma forma de prever qual a chance de ocorrer um determinado resultado (neste caso, ser pareado com um baralho de combo) dentro de um determinado número de tentativas aleatórias independentes (rodadas do torneio). Segue abaixo a fórmula utilizada para o cálculo:

Fórmula utilizada para o cálculo

Neste caso, temos n como o número de rodadas de um torneio (15 no caso de um GP); X o número de vezes que esperamos ser pareados com o baralho de combo; p como a probabilidade pontual de sermos pareados com tais baralhos e q como inverso desta probabilidade. Para aqueles pouco interessados em cálculos, basta apenas ignorar esta parte e se focar mais nos resultados.
Para se calcular a probabilidade de pareamento, a chance de ocorrência foi medida a partir da soma total dos baralhos de combo da amostra, dividida pela quantidade geral de decks. Uma vez identificados quais os baralhos podem ser considerados “combos”, sua velocidade, em termos de quantos turnos geralmente uma determinada lista leva para acabar o jogo – conceito também conhecido como turno fundamental – foi estipulada a partir de artigos e comentários em fóruns especializados sobre cada um dos baralhos. Por exemplo, assumiu-se que o turno fundamental dos decks de Show and Tell como 3, baseado nos comentários do MTG Salvation e nos artigos do Channel Fireball. Da mesma forma assumiu-se como o turno fundamental do BR Reanimator como 1.

Resultados:

Amostra geral:

Ao total, a análise considerou um montante de 424 decks, sendo eles representantes de 52 estratégias diferentes. Quando observamos a distribuição em arquétipos, os resultados encontrados são similares aos previamente identificados em outros artigos deste site. Os 3 arquétipos principais têm uma distribuição próxima a uma uniformidade em 30%, o que é um bom indicativo de um formato saudável.

Quando nos deparamos com este resultado, e o ponderamos dentro de um torneio de 15 rodadas, como um GP, assumimos que a probabilidade individual de pararmos com cada um desses arquétipos é equivalente à sua densidade geral dentro da amostra. Por exemplo, a cada rodada, temos 23,08% de chances de enfrentarmos um deck agro, e a cada aproximadamente 4 partidas, podemos assumir que enfrentaremos ao menos 1. O gráfico abaixo mostra o cálculo de projeção desta probabilidade indicada acima ao longo das 15 rodadas de um GP. Vale lembrar que esta análise não considera diferença entre arquétipos em termos de winrate, assumindo que esta proporção se manterá a mesma ao longo de todas as chaves do torneio, independente do quão bem colocado você esteja.

Projeção de probabilidade de pareamento do longo de um torneio

Observando atentamente o gráfico acima, podemos assumir que após 15 rodadas, a temos quase que 100% de chance de enfrentar ao menos 1 vez cada um dos arquétipos que compõem o formato Legacy. Levando em consideração única e exclusivamente o arquétipo de combos, os resultados indicam uma representatividade média de 30,77% do metagame, com uma probabilidade de pareamento de 99,6% até o fim do torneio e uma expectativa de aproximadamente 5 encontros com este tipo de baralho. Em suma, o que podemos concluir com isto é: Não podemos ignorar a presença de combos em um torneio tão grande como este. Os números não estão a favor daqueles que esperam ser favorecidos pela sorte, com a expectativa de desviar deste tipo de confronto. Tal resultado pode impactar na escolha de baralhos dos jogadores. Decks mais frágeis ou com menos ferramentas para lidar com combos, tais como Enchantress, Burn ou Goblins podem não ser a escolha ideal para este field.
O problema que se segue com os resultados encontrados é: nem todo o combo tem a mesma velocidade, e decks diferentes acabam possuindo matchups variáveis contra o mesmo arquétipo. No trecho a seguir deste artigo, nos focaremos em analisar especificamente, uma vez enfrentando um deck como este, o que esperar de sua velocidade e capacidade de terminar partidas, antes mesmo de conseguirmos jogar.

Combos e expectativa de turno fundamental:

Dos 52 tipos de decks encontrados nesta análise, 16 deles eram pertencentes à categoria unfair. Como já dito anteriormente sua representatividade geral foi de 30,77% e os dados referentes aos turnos fundamentais de cada lista, assim como suas respectivas amostragens podem ser identificadas na tabela abaixo.

Ao analisarmos a estatística descritiva desta amostra, podemos inferir que a mesma se aproxima de uma distribuição normal (ver histograma abaixo), com média = 2,613403 e variância = 0,780969. Em outras palavras, Ao encontrarmos um jogador de combo (porém sem saber que deck especificamente), podemos esperar que ele provavelmente finalizará a partida entre o segundo e o quarto turno, com a maior probabilidade concentrada no terceiro.

Turnos fundamentais de combo

É evidente que a maior densidade dos combos se focam em terminar a partida no turno 3, tais como o Show and Tel, Elfos e Infect. Apesar disso, temos um número significante (19) de decks especializados em terminar o jogo no primeiro turno – dentre eles o BR Reanimator, Belcher, Mono Red Sneak Atack e Tin Fins – sem dar ao oponente a oportunidade de se defender (a menos em casos de Force of Will). Por fim, o que podemos concluir é que decks de combo mais lentos, tais como o Enchantress, UG Cloudpost e High Tide, que se focavam em combar no turno 5 em diante simplesmente desapareceram do metagame. Acredita-se que estes decks eram mais adequados em lidar com jogos lentos e de atrito, mas, uma vez que o Miracles saiu do meta, o reaparecimento de estratégias de mana denial e hand disruption (tais como o grixis delver) fizeram com que abordagens um pouco mais agressivas ganhassem maior popularidade.

Caso seja pareado com qualquer um

Pensando em expectativa, podemos esperar que ao sermos pareados às cegas com qualquer um, a probabilidade de sermos combados nos 2 primeiros turnos (cruciais para decks como death and taxes ou Maverick) é relativamente baixa (7,49%). Os turnos fundamentais apenas se tornam preocupantes entre os turnos 3 e 4, que compõem quase que dois terços da distribuição geral de probabilidade. Este resultado, em teoria, versa a favor de baralhos compostos por hatebears, que dispões de ferramentas como Thalia, Guardian of Thraben; Gaddock Teeg ou Meddling Mage para combater interações degeneradas. Uma vez que geralmente estes cards são jogados no turno 2, existe uma perspectiva de que grande parte dos combos não seja ágil o suficiente para evitá-los, porém sempre com o risco de um pareamento ruim ao longo do caminho.
Em mãos dos resultados acima, devemos agora nos perguntar como esta probabilidade pontual se comporta, a medida que jogamos repetidas vezes ao longo de um torneio, sempre com a expectativa de estarmos preparados para todo e qualquer oponente provável.Será que tais decks ainda assim estarão bem posicionados para um evento como um GP? O gráfico abaixo mostram a projeção de probabilidade de uma pessoa ser surpreendida com um combo em diferentes turnos ao longo do torneio.

Expectativa de ser combado

Quando observamos a mesma distribuição de probabilidade projetada ao longo de repetidas matches, é evidente que o quadro se inverte. Ao final de 15 rodadas de GP, a chance de termos sido combinados ao menos 1 vez no primeiro turno de jogo é de 54,28%. Quando pensamos em turnos 3 e 4, a probabilidade acumulada chega a 99,6%, o que é alarmante. Este resultado tem um impacto direto na escolha de deck/sideboard, para todo e qualquer jogador que visa atingir o topo do torneio. Se para chegar em um top 8, uma pessoa não pode perder mais do que duas partidas, é evidente que ela deve estar preparada para um cenário de 54% de probabilidade. Logo, sugere-se como conclusão a este artigo que todo e qualquer baralho, independente da cor, deve ter em seu main/sideboard alguma ferramenta de interação que não exija terrenos em jogo. Cartas como Leyline of the void, Leyline of the Santicity, Mindbreak trap, Surgical extraction e/ou faerie macabre são essenciais. Outro ponto que deve ser ressaltado é que não existe nenhuma perspectiva de vitória para decks não interativos que visam ganhar o jogo após o turno 3. Tal escolha seria assumir uma derrota com 99% de certeza para algum deck de combo ao longo do evento. Tal cenário afasta decks orientados em valor, como o Post, Enchantress e Goblins (tipicamente utilizados para responder ao falecido Miracles) como boas soluções ao metagame.

Conclusão:

Este artigo teve como objetivo analisar a ameaça de combos no novo metagame Legacy e ponderar o quanto devemos nos preparar para este arquétipo dentro de um torneio de grande porte. Para atingir tal objetivo, um modelo de probabilidade binomial foi utilizado para calcular a projeção do valor esperado de encontros com decks de combo em um GP de 15 rodadas, e uma vez pareado, qual a probabilidade do jogo ser finalizado nos primeiros turnos.
Os resultados mostram que apesar do fato de que combos não representam uma quantidade ameaçadora do metagame Legacy atual, sua presença é grande o suficiente para que este arquétipo não possa ser ignorado em torneios de maior porte, o que afeta diretamente na escolha de baralhos. Ao final deste artigo recomenda-se que todo e qualquer deck deve ter plenas condições em seu main deck de combater combos de turno fundamental 3 ou 4, e ao menos no sideboard alguma forma de interação no turno 0. Analisando este arquétipo isoladamente, não se recomenda o uso de decks que não consigam finalizar o jogo ou ao menos interagir de forma significante nos turnos iniciais de suas partidas, devido à alta chance de encontro com este tipo de baralho nas rodadas de suíço.
Por fim, deve-se salientar as limitações deste estudo, uma vez que ele considera abstrações gerais baseada nas experiências de jogadores quanto aos turnos fundamentais de combo de cada um dos decks listados. A amostra foi baseada nos resultados da semana passada no Magic Online, e pode não ser representativa de um metagame de Grand Prix. O estudo não considera a probabilidade de projeção e avanço deste arquétipo ao longo das rodadas do torneio, assumindo que sua densidade se manterá a mesma em todas as rodadas. Por fim, foram realizados testes paramétricos em amostras de distribuição discreta, o que não é o ideal (porém factível no mundo de jogos de azar), podendo causar leves discrepâncias em um resultado real, de amostra maior.

Sobre Rafael

Rafael Cirino é pesquisador e jogador veterano de baralhos de combo. Além de um amante de probabilidade e deckbuilding, Rafael venera nos fins de semana o seu maior ídolo: Karn Liberated.

Um comentário

  1. UAU!! Que análise maneira… meus parabéns ao autor

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