sábado , 23 setembro 2017
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Rob Alexander, autor de old duals, fetchs e shock lands, ilustrando um playmat do Eternal Magic.

Rob Alexander, o artista iluminado

Edição: Paulo de Tarso

Las Vegas – Rob Alexander tinha recém se formado na escola de artes, tinha vinte e poucos anos e recusava os insistentes convites feitos por Jesper Myrfors para trabalhar no projeto de um novo tipo de jogo que a Wizards estava desenvolvendo. “Eu tinha outros projetos, em uma revista que não lembro mais o nome, e, como já tinha tido uma experiência ruim com a Wizards of the Coast, achava que seria mais incômodo do que algo que valeria a pena”, relembra o canadense de Ontário. Foi um amigo seu que falou do caráter de Jesper Myrfors, diretor de arte da empresa. Um cara direto, honesto, confiável. “E você vai gostar do projeto, vai gostar do produto”. E, na ligação seguinte, ele se juntou ao pequeno time que se espremia no porão da casa de Peter Adkinson (fundador da Wizards) para desenvolver o Magic: The Gathering.

Mesmo depois de quatro dias de intensa atividade, Rob mostrou-se extremamente simpático e prestativo. Enquanto caminhávamos em busca de um lugar reservado para realizar esta entrevista, ele comentou que perdeu a conta de quantas cartas assinou em Las Vegas. “Foram milhares e milhares. Levei caixas para o hotel e passei a noite assinando”. Em uma conversa que o próprio Rob definiu como “realmente prazerosa”, o artista falou do seu estilo, do uso da tecnologia na arte e, é claro, sobre Magic. Segue a íntegra desta entrevista feita com exclusividade para os leitores do Eternal Magic:

Rob ilustrando um playmat do Eternal Magic.

Fausto de Souza: Quem vê suas obras, seja nas cartas de Magic, no seu site, ou em qualquer outro lugar, percebe imediatamente o cuidado com a aplicação da luz nos trabalhos. Quando foi que você percebeu que essa característica deveria ser o ponto marcante em seu estilo?

Rob Alexander: Acho que foi quando comecei a estudar arte, acho que não foi algo consciente, planejado. Eu apenas pintava, via o que era necessário, importante para mim. Lembro que eu estava em uma aula, pintando uma natureza morta, ou algum dos modelos que posavam na sala, quando um instrutor parou atrás de mim, olhou por cima do meu ombro e disse: “é tudo sobre luz para você, hein?” Respondi que ele estava certo. Sempre gostei de trabalhar todos os aspectos quando estou criando uma imagem, mas tem o ritmo, os jogos de luz pela imagem, as sombras, os objetos obscuros, o drama envolvido na peça. É tudo realmente muito bonito. Eu compararia o meu estilo aos diretores de cinema de arte que fazem filmes em preto e branco.
Pode não haver cores, antigamente não havia sons, mas sempre houve a luz. E a habilidade deles em criar o clima, o drama, em contar uma história, mesmo que tudo se resumisse a um frame estático, é a mesma coisa que me atrai.
Ao olhar para trás, relembro que minhas principais influências são artistas do norte da Europa, na maioria. Pintores holandeses, ingleses, do norte da França, dos países nórdicos. Eu sempre me preocupei em captar a essência, a qualidade da luz, e esse tipo de pintura foi o que sempre me atraiu. Então, nas aulas de história da arte, na universidade, eu sempre admirei o drama, a intensidade, a possibilidade de se criar personagens que você sente que quase pode tocá-los. Tem muito a ver com a compreensão dos estudos da pintura da luz.

Fausto: Seu trabalho e sua compreensão do uso da luz o tornou um dos grandes artistas do Magic. Você tem a mesma percepção de Leonardo da Vinci, o mesmo cuidado com a luz que ele tinha. Quando pintou Monalisa, ele criou três focos principais de luz. Rosto, peito (até o ombro esquerdo) e mão direita. Tudo naquele quadro é sobre luz. Se você relembrar a Renascença, parece que da Vinci estava tentando mostrar o novo ser humano que nascia naquela época, deixando pra trás todo o obscurantismo vivido até aquele período.

Rob: Essa é uma análise perspicaz. Leonardo é mais um por quem eu tenho uma grande admiração, e não apenas por suas pinturas. Alguém fez uma tradução dos seus trabalhos, de suas explicações científicas, análises, criação de imagens, como a luz é afetada pelas coisas do mundo real e como as coisas do mundo real são afetadas pela luz, e é tudo muito fascinante. Então, lá no começo da carreira eu já tinha consciência da direção que a minha arte deveria tomar.

Fausto: E você acha que a arte tem um objetivo nela mesma?

Rob: Isso tem muito a ver com as preferências pessoais, com a mentalidade de cada artista. Certamente é uma ferramenta muito poderosa de comunicação visual. Pode ser algo simples e direto, pode contar uma história, capturar um momento. Se voltarmos ao período em que não havia máquinas fotográficas, as obras de arte é que mostravam um evento, um acontecimento. Hoje, grandes eventos têm uma cobertura fotográfica enorme. A coroação de alguém, mortes ou nascimentos, ou retratos de família. Quem fazia isso era um artista. Esse trabalho não é mais necessário, porque a fotografia substituiu a arte. Isso, por outro lado, possibilitou que os artistas começassem a fazer obras de cunho pessoal ou social. Eles podiam fazer qualquer coisa que quisessem. Então, tudo se resume a o que o artista quer alcançar.
Na arte contemporânea vemos de tudo, desde pintar o que se gosta, ou o que faz o artista sentir-se bem, até arte social e política, tentando chamar a atenção do público para um determinado assunto… ou eu posso simplesmente fazer uma ilustração para a sua camiseta! Faz parte do artista decidir por ele mesmo (o objetivo da sua arte).
Pessoalmente, eu gosto muito de contar histórias por imagens, eu desenho ilustrações para meus contemporâneos. Por exemplo, arte-conceito para filmes, em que você definitivamente tenta contar uma narrativa, determinar uma colocação dos personagens em um cenário no espaço e no tempo, e explorar todos esses fatores durante o processo.

Fausto: Como você vê as mudanças que a tecnologia trouxe à arte? Como elas se aplicam à sua rotina?

Rob: Eu acho que, por um lado, a tecnologia mudou tanto que tornou nosso processo de trabalho muito mais fácil, muito mais acessível… mas, no fim do dia, seja fazendo arte à mão ou no computador, ou escultura, ou qualquer outro tipo de arte, você tem realmente que compreender as regras fundamentais da arte, da observação. Isso não muda.
A tecnologia também tirou um pouco da individualidade do artista. Muitas pessoas utilizam os mesmos programas para criar arte digital. Isso leva a uma similaridade, a uma repetição no aspecto da arte. No fim, muitos trabalhos ficam indistinguíveis um do outro. Isso minimiza a voz do artista.
Você tem a tecnologia que conduz um pouco a sua arte, mas não decide o que é ou não uma ilustração aprazível, ou algo tecnicamente correto. Então, a mente do artista ainda determina o que é feito. Ainda somos o árbitro final do que está sendo feito. O computador fez as coisas ficarem mais rápidas e fáceis, mas ainda não faz o trabalho para você. E este sempre foi o caso quando houve novidades no processo de criação e execução da arte. Ainda são necessários a compreensão, o talento e os conhecimentos do artista para se fazer uma bela obra de arte.

 

Sempre que baixar um terreno, veja se a arte não é do Rob.

Fausto: Vamos falar um pouco sobre Magic. Como foi que aconteceu? Jesper ligou para você e disse “eu tenho uma carta chamada Taiga, e você precisa fazer uma ilustração para ela?”

Rob: Eu entrei no escritório da Wizards, olhei a lista de cartas que ainda precisavam de ilustrações e, como sempre gostei de paisagens e havia várias disponíveis, escolhi aquelas que tinham um nome interessante e as pequenas descrições me atraíam. Na época, eu não sabia a distinção entre terrenos básicos e não-básicos. Nem sei se esse conceito já estava solidificado. Mas as descrições dos terrenos não-básicos eram mais interessantes, mais complexos. Ao contrário do Swamp, que era algo bem simples, a Underground Sea, ou a Taiga, se mostraram muito mais atraentes. E, como eu cresci nas Montanhas Rochosas canadenses, sei exatamente como é a taiga. Assim eu decidi as cartas que iria pintar: “Parece divertido. Vou tentar”.

Fausto: E, sobre essas primeiras ilustrações para o Magic. Esses terrenos que todos os jogadores de Legacy amamos jogar. Você tinha alguma noção de que elas se tornariam ícones do jogo, seriam tão famosas e poderosas?

Rob: Eu não tinha a menor ideia. Nenhum de nós tinha. No início da fase de desenvolvimento do jogo, das mecânicas, das regras sendo escritas, aquilo tudo acontecia ao mesmo tempo e eu não sabia como as cartas seriam jogadas, como seriam usadas. Eu fiz algumas pinturas que eram atraentes para mim, motivos que eu gostava de pintar. Jamais imaginaria que 25 anos depois as pessoas ainda estariam jogando com elas, gostando delas. Foram imagens que eu realmente gostei de pintar, que me deixaram feliz.

Fausto: Há uma mudança notável em seu estilo. Quando comparamos uma dual land original com, por exemplo, um Temple Garden de Ravnica, a diferença é perceptível. Nas primeiras há uma paisagem mais limpa, e na shock land há muito mais elementos na arte. O que houve?

Rob: Há um pouco de mudança de estilo, sim, mas tem mais a ver com eu estar mais velho, mais maduro, ter desenvolvido outras habilidades artísticas. Agora sou capaz de lidar com composições muito maiores, mais complicadas, e ainda fazer funcionar direito. As duais originais foram feitas em aquarela, enquanto que as shock lands foram feitas em pintura a óleo, então há um processo técnico diferente, há um aspecto diferente. Mas a maior parte das mudanças está no progresso das minhas habilidades artísticas com o passar dos anos.

Fausto: Há sempre uma curiosidade de todos sobre o início do Magic, e você é um dos caras que começou todo esse trabalho. Como foi esse início?

Rob: No início, Jesper me contatou algumas vezes e eu disse não. Depois, empacotei esses projetos e aceitei. Afinal, é melhor trabalhar em algum projeto que dá algum dinheiro do que não trabalhar em nada. A estrutura era muito pequena, éramos algumas pessoas no porão da casa do Peter Adkinson tentando criar esse jogo e esperando que, de alguma forma, as coisas funcionassem.
No fim, tudo deu certo, os custos se pagaram, foi ótimo, porque todos gostaram. É um caso de um jogo bem-sucedido, mas naquele tempo ninguém tinha a menor noção de que o jogo se tornaria um sucesso instantâneo, com toda a paixão e dedicação dos jogadores. Tudo o que aconteceu ficou bem acima das expectativas mais otimistas de qualquer um de nós.

Fausto: E a que você atribui esse sucesso instantâneo?

Rob: Acho que isso se deve a uma combinação de fatores. O jogo, em si, era muito interessante. Você podia entender as regras básicas muito rapidamente, mas, por causa da natureza do jogo, nenhuma partida seria igual à outra. Tudo isso por causa das amplas possibilidades de estratégia, das cartas que você compra… eu não acredito que o Magic tenha sido realmente o primeiro card game competitivo a ser inventado, mas não havia nada parecido com o jogo no mercado, naquele tempo. E caiu na graça de todos.

 

 

Sobre Fausto de Souza

Fausto de Souza, jogador e colecionador desde 1994, é pseudônimo do jornalista Marcelo Salles. Formado pela Universidade Federal Fluminense, tem 15 anos de experiência profissional em jornais, revistas e assessoria de imprensa, incluindo Jornal do Brasil e revista Caros Amigos.

3 Comentários

  1. Entrevista maravilhosa, Rob Alexander é um camarada brilhante.

  2. Muitíssimo interessante descobrir as origens do Magic e as pessoas envolvidas! Artistas que deram vida à nossas queridas cartas! Jogadores Eternos agradecem!

  3. Parabéns Fausto , bom trabalho . Nota 10 –

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