quarta-feira , 17 janeiro 2018
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Diferenças entre os metagames brasileiro e internacional de Legacy

Introdução

Olá a todos e a todas! Sejam mais uma vez bem vindos a mais uma edição da coluna Arcane Laboratory! Para quem não sabe, o legacy brasileiro foi agraciado por uma série de eventos divisora de águas para a comunidade. Em um intervalo de menos de 30 dias, a comunidade legacy brasileira realizou dois grandes eventos na região sudeste do país, cada um deles com mais de 80 jogadores. Os eventos foram o Super Alpha Legacy (vulgo Alphão), realizado na cidade do Rio De Janeiro – RJ; e o Open Legacy 4k São Lourenço, realizado na cidade de São Lourenço – MG. Para aqueles que têm maior interesse em ler sobre os eventos, segue as reportagens de cobertura de ambos:

http://eternalmagic.com.br/2017/08/alpha-legacy-leva-96-jogadores-ao-centro-do-rio/

http://eternalmagic.com.br/2017/09/jeskai-stoneblade-conquista-open-sao-lourenco-confira-as-decklistas-do-top8/

Estes eventos foram muito ricos para a comunidade, não só para mostrar quanto o formato está forte no país, mas também por oferecer uma base estatística sólida, em termos de deck choices que compõem o cenário brasileiro do formato, a qual pode ser utilizada para fazer predições sobre o nosso nacional Legacy, que ocorrerá dia 24 e 25/11 em São Paulo – SP. Como não poderia faltar, aqui vamos nós para mais uma análise do metagame legacy com uma abordagem estatística, desta vez focada não no cenário lá fora, mas como nós brasileiros atacamos o formato.

Um ponto sempre  debatido neste formato é a abertura para decks jogáveis. Como o power level do formato é muito grande, existe uma grande variedade de decks que podem ser utilizados dentro de um cenário competitivo. Mais do que isto, listas são duradouras e o metagame é relativamente estável, permitindo uma pessoa a manter o mesmo deck por anos. Tal estabilidade propicia o desenvolvimento de uma relação afetiva entre um jogador e o deck, o qual acaba se tornando um mestre com aquela lista ou arquétipo, sem ser punido por isso – muito pelo contrário, muitas vezes beneficiado. Dado este cenário, é comum jogadores de legacy repetirem a seguinte frase: “neste formato, mais vale a experiência, logo, pessoas jogam do que querem/têm, e não necessariamente daquilo que é considerado tier 1”. Alguns exemplos famosos de jogadores especialistas com o deck, que são recompensados pela sua experiência podem ser vistos no cenário internacional. Alguns exemplos que podem ser mencionados são Rodrigo Togores (ganhador do GP Praga), com o seu temido storm; Jarvis Yu (Ganhador do GP Seatle) e seu Lands; e Julian Knabb (famoso streamer na comunidade legacy) e o seu baralho de Elfos.

Levando em consideração os argumentos acima, é de se esperar que metagames locais de diferentes países apresentem diferenças significativas de um metagame online ou de um GP/ evento de escala global. Dentro desta perspectiva, ainda é incerto quais as peculiaridades que tornam o metagame brasileiro único. Este é um fator agravante para uma comunidade latino-americana, devido a uma dificuldade de acesso a cartas de alto custo e baixa disponibilidade, tais como as old duals e outras cartas da Reserved List. Unindo o útil ao agradável, o artigo deste mês na coluna pretende utilizar este rico novo set de dados sobre o metagame nacional e comprá-lo com o metagame genérico internacional, baseado em dados fornecidos pela plataforma do Magic Online, por ser a ferramenta de maior acesso ao formato. Tendo em vista os objetivos elucidados acima, as seguintes perguntas de pesquisa foram estabelecidas para este artigo:

  1.      Quais as diferenças em termos de escolha de decks quando comparamos o metagame brasileiro e o metagame do Magic Online?
  2.      Qual a diferença de densidade de arquétipos, entre Agro, Combo e Control, entre os metagames observados?

Metodologia

A fim de responder as perguntas estabelecidas, a metodologia proposta para este artigo foi uma análise comparativa dos metagames internacional e brasileiro, a partir de amostras retiradas de uma semana no MTGGoldfish, em comparação com os 2 eventos Legacy apresentados anteriormente. Uma vez coletados os dados, os diferentes decks foram identificados e a frequência de cada um deles foi contada nos três eventos. Após a identificação e contagem, todos os decks foram assimilados a um arquétipo (agro/tempo, control/midrange/prision ou combo) e os resultados dos dois eventos brasileiros foram somados, como uma única amostra. Ao total, os dados contaram com 173 decks brasileiros e 255 decks online, distribuídos entre sí em mais de  57 listas diferentes.

Para responder a primeira pergunta, foram aplicados repetidos individual sample T tests, um para cada deck do formato. Este teste basicamente compara a densidade de uma probabilidade simples de ocorrência de um evento probabilístico (neste caso, o aparecimento de determinado deck em um campeonato) com outro evento similar, dentro de um modelo binomial, já explicado em artigos anteriores na coluna. Para aqueles interessados, segue abaixo a fórmula utilizada para o cálculo:

Nesta fórmula, considera-se p a frequência percentual de um determinado deck em um metagame (p1 = Brasil; p2 = online) e n o tamanho da amostra, ou número de decks analisados. Em termos simples, este cálculo compara a representatividade de uma determinada lista em duas amostras diferentes, baseado em seu tamanho, e gera um valor Z. Caso este valor atinja um determinado limiar, podemos assumir estatisticamente que determinado deck é mais popular em uma população do que em outra. No caso deste estudo, estamos utilizando um limiar α de 90% (devido ao tamanho a amostra), o que equivale a um limiar de 1,65. Ou seja, caso o valor Z apresentado para um deck seja igual ou maior do que 1,65, podemos assumir que este deck é melhor representado no Brasil. Caso o valor de Z seja inferior a -1,65, assumimos que ele é melhor representado no exterior. Mais detalhes sobre o método utilizado podem ser encontrados em: https://stats.stackexchange.com/questions/113602/test-if-two-binomial-distributions-are-statistically-different-from-each-other

Afim de responder a segunda pergunta, a densidade percentual de cada arquétipo foi calculada e comparada qualitativamente (devido a limitações de amostra).

Resultados

Os resultados encontrados mostraram significativas diferenças quanto à popularidade de alguns decks no metagame brasileiro, quando comparado com o internacional. Apesar disso, como já de costume no formato, existe uma grande diversidade de decks peculiares (muitos deles com apenas um representante) em ambos os metagames. A título de exemplo temos Stiflenought (direto dos primórdios do legacy competitivo), Enchantress, Mono R Storm, BR Control e companhia limitada. Os dados crus podem ser vistos na tabela abaixo em spoiler.  Dentro da tabela estão especificados os valores de Z,como já indicado na metodologia e as discrepâncias entre os formatos estão indicadas em vermelho.

Como pode ser observado na tabela acima, existem 3 decks em cada um dos metagames observados que se destacam, quando comparados com o outro, sendo eles:

Decks melhor representados online Decks melhor representados no Brasil
Czech Pile Show and Tell
Grixis Delver Death and Taxes
Storm Infect

Por algum motivo curioso, os decks de manabase grixis estão no topo da lista de popularidade do MOL, motivo inclusive pelo qual a Underground Sea e a Volcanic Island andam tão caras. Seria a barreira de acesso financeiro às cartas o motivo para este resultado? Não cabe a nós discutir isso neste artigo, mas sim como isto impacta o metagame e a escolha de decks para eventos futuros. Vale lembrar que esta análise não diz de maneira alguma que os decks menos representados em um grupo não são predominantes no meta! Mesmo sendo estatisticamente menos utilizado do que no MOL, Grixis Delver ainda é um dos decks mais populares do Brasil, e o mesmo pode ser dito para o Death and Taxes online.

Logo de primeira análise, podemos concluir que um meta sem, ou quase sem Czech Pile é um excelente meta para decks mais agressivos. A título de exemplo, decks como o Storm sempre tiveram um matchup positivo contra death and taxes (por mais que a Thalia, Guardian of Thraben seja um problema, ela é basicamente a única fonte de interação relevante no game 1 e seu sideboard é bem equipado para lidar com hatebears), Show and Tell (devido ao número de descartes) e infect (por simplesmente ser um turno mais rápido). Um dos seus piores predadores, estratégias grixis capazes de combinar uma agressão muito rápida com a medida certa de disruption, tem sua densidade diminuída neste meta, tornando uma escolha que já era excelente melhor ainda.

Olhando pelo outro lado da moeda, a falta de storms no metagame e a presença de combos levemente mais lentos como show and tell e infect também acaba por propiciar a utilização de outros decks baseados em hatebears, tais como o Maverick. Como já dito antes, por mais que hajam menos grixis delvers no Brasil, eles ainda são numerosos o bastante para que se possa aproveitar a matchup positiva sem ser punido por isso. Decks baseados em True-Name Nemesis, como o UWR stoneblade que levou o Open São Lourenço são boas escolhas para este field. Além deste tritão por si só ser uma boa ferramenta para combater decks de board como Death and Taxes, o deck ainda conta com a presença da Stoneforge Mystic para ajudar na partida contra o Infect.

Considerando agora a segunda pergunta, e como a distribuição de arquétipos se diferencia entre formatos, os dados encontrados novamente apontam certa diferença entre o Brasil e o ambiente online. Os gráficos abaixo mostram em percentagem como estão distribuídos ambos os metagames.

Os dados apresentados acima mostram que brasileiros são mais adeptos a estratégias de combo (31,79% contra 22,75%), e menos entusiastas de baralhos de controle (36,42% contra 49,80%). Isto novamente enaltece a carência de estratégias de cor grixis e baralhos de controle no formato. Cards como Leovold, Emissary of Trest, Hymn to Tourach e afins são muito importantes para manter decks de combo sob controle, e estão emfalta no nosso metagame.

Conclusão

O objetivo deste artigo foi analisar comparativamente o metagame Brasileiro do formato Legacy, em comparação com o ambiente Internacional. Para tal, resultados de dois grandes torneios nacionais foram utilizados como amostra e comparados com os dados coletados de uma semana de partidas legacy competitivas no Magic Online (obtidos através do MTGGoldfish).

Os resultados encontrados mostram uma carência de estratégias das cores Grixis no metagame brasileiro, em favor de um aumento no número de Death and Taxes, Show and Tell e Infect. Tal resultado sugere que decks de combo agressivos, tais como o storm, ou de interação plena com a board como o stoneblade, sejam formas adequadas de se lidar com este ambiente.

No que tange a distribuição em arquétipos, percebeu-se que brasileiros preferem jogar de combo, em detrimento de baralhos de control. Tal resultado Evidencia a carência de decks de Grixis e ferramentas de disruption efetivas dentro do metagame.

Por fim, fico feliz de ver que apesar de ser um formato tão estudado e fortemente estabelecido, o Legacy ainda é capaz de estabelecer um metagame único em esfera local, gerando suas próprias peculiaridades e desafios. Espero que nós brasileiros continuemos prezando por nossa individualidade e fico curioso para saber como devem ser os metagames nacionais de outros países. Até a próxima!

Sobre Rafael

Rafael Cirino é pesquisador e jogador veterano de baralhos de combo. Além de um amante de probabilidade e deckbuilding, Rafael venera nos fins de semana o seu maior ídolo: Karn Liberated.

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