segunda-feira , 20 agosto 2018
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Coisas boas são eternas

Quando comecei a jogar Magic, em 1994, já li e ouvi dezenas de vezes as seguintes sentenças: “Ah, o Legacy é o novo Vintage. Não tem futuro” e “O Legacy está morto”. De quando em quando aparece alguém para sacramentar a derrota do formato eterno mais popular do jogo. Ao longo dos anos, percebi que essas ondas de desagravo quase sempre coincidiam com os reajustes de preços de staples do formato, o que me levava a desconfiar de uma certa parcialidade no julgamento. Além disso, também percebi algo curioso: nenhuma das vezes em que essa sentença foi proferida, o Legacy morreu. É como se afirmação dos pseudo juízes se confundisse com seu mero desejo (ou pirraça mesmo), que por nunca estarem embasados em fatos concretos jamais se realizava.

Abre parêntesis. Não me entendam mal: claro que todos gostaríamos que tudo fosse mais barato, desde o nosso hobby até o preço da gasolina, passando pelo índice da cesta básica, aluguel, etc. A questão é: vamos defender que o nosso hobby seja acessível para todos, incluindo quem não tem dinheiro para comprar cartas acima de 300 reais, ou vamos espernear apenas quando convém? Fecha parêntesis.

Os anos foram se passando, nasceu o Modern, veio o Commander, o Pauper avançou e o Legacy segue firme e forte. Aliás, até o ano passado a Wizards só realizava 3 GPs exclusivamente Legacy por ano, passando a 4 pela primeira vez em 2018. Vamos lá, pessoal. A Wizards é uma empresa capitalista e, como tal, não curte jogar dinheiro fora. Ela simplesmente não faria um GP se ele não lhe desse retorno. Além disso, o Legacy avançou para os GPs de time construídos. E, pasme, terá sua estreia num Pro Tour (em times, mas ainda assim estará presente), agora em setembro, na edição comemorativa de 25 anos do jogo.

Ah, mas você vive no Brasil e aqui não temos dinheiro pra comprar decks Legacy. Aqui ninguém ganha em dólar, o buraco é mais embaixo. Aqui sim o Legacy morreu. Porque, claro, você não vê ninguém na sua cidade jogando, então você realmente acredita que sua cidade reflete o todo, por mais que você saiba que o Brasil tem mais de 5.500 municípios.  Não importa pra você. E é por isso que você, que na maioria das vezes não faz ideia de quem foi Roberto Baggio e o que ele significou para o Brasil naquele 1994, continua errando. Erra feio. Erra rude. E o Legacy continua vivo.

No caso brasileiro, não apenas continua vivo como apresenta uma saudável curva de crescimento. Atualmente temos seis unidades da Federação com torneios Legacy regulares: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. O Distrito Federal caminha a passos largos para se tornar o sétimo e realizará no próximo dia 5 de agosto a segunda edição do Eternal Challenge, que dará ao campeão uma Tropical Island + bye para o Nacional Legacy.

Vamos aos números

O Legacy RS, capitaneado por Rafael Obrusnik, reuniu 79 jogadores diferentes nas sete etapas realizadas só neste ano, com recorde de 49 jogadores e média de 42,6 participantes por etapa. A Alpha Legacy, organizada por Rodrigo Sousa e Felipe Duarte, contou com a participação de 92 jogadores diferentes, com recorde de 40 players na mesma etapa. No Nordeste, onde o Legacy arrasta multidões, a Lampions League, de Alex Araújo, já conta 54 jogadores diferentes apenas este ano, com média de 27,2 participantes por etapa.

Voltando ao Sul, o Circuito Catarinense vem mantendo a tradição e se consolida como o maior torneio regional em termos de representatividade: nada menos que 82 pessoas diferentes apareceram para jogar os torneios este ano, com recorde de 48 numa mesma etapa e uma incrível média de 45,2 por etapa. E 2018 tem sido pródigo em novidades. Neste ano foi criada a Liga Paulista de Legacy, conduzida por Davi Pereira, que de cara contou com 47 jogadores em sua inauguração no mês passado!

Mas a atual detentora do recorde de jogadores num mesmo torneio é Minas Gerais. Nada menos que 52 participantes estiveram presentes na edição de junho da Liga Mineira de Legacy, elevando a média para 40,8 jogadores. O torneio, criado por Thiago Duarte, se destacou tanto no país que foi confiada a ele a organização do próximo Nacional Legacy, a ser realizado nos dias 24 e 25 de novembro na cidade de Belo Horizonte.

Ou seja, se somarmos o número de jogadores diferentes de Legacy no Brasil chegamos a mais de 400 apenas no primeiro semestre desse ano, um aumento de aproximadamente 25% em relação ao mesmo período do ano passado. É preciso somar ainda os jogadores do DF e estimar um número para as cidades que ainda não produzem seus próprios dados, de modo que não seria exagero falar em 500 jogadores diferentes no país, só neste primeiro semestre.

Um torneio para ficar na História

No último 24 de junho, o Legacy nacional deu uma inequívoca demonstração de força. Em Belo Horizonte, a Liga Mineira, criada por Thiago Duarte, bateu um recorde que provavelmente ficará para a história durante um bom tempo. A foto de capa deste artigo foi feita durante este torneio, que reuniu nada menos que 52 jogadores, alcançando uma marca difícil de ser batida até mesmo por campeonatos regionais independentes de outros formatos. O Top8 ficou da seguinte maneira:

Top8
Esper Blade (Moisés)
Big Red (Irineu)
BG Depths (Adilson)
4c Leovold (Thiago Couto)
Grixis Delver (Tulio)
UWR Miracles (Natan)
UWR Miracles (Rodrigo Pereira)
Food Griffin (Tharso)

Conforme havia sido prometido, acaso a etapa reunisse 50+ players seriam distribuídos quatro byes para o Nacional Legacy e o organizador jogou vestido de Chapolin Colorado 🙂

Para além da brincadeira, que foi bem recebida por todos, é fundamental ressaltar o trabalho da Liga Mineira para o fortalecimento do Legacy no estado de Minas e daí para o Brasil. Com o fim dos LQs, em 2012, o formato chegou ao ponto de penar para juntar 8 players em seus torneios mensais. Com o Modern em franca ascensão, foi uma das épocas em que os agourentos mais decretaram o fim do formato eterno.

Foi então que surgiu a ideia da Liga Mineira que, em parceria com a UGCardShop, ocupou o espaço deixado pelos LQs e se firmou enquanto porto seguro para os jogadores de Legacy. A LML saltou de 14 jogadores em 2014 para os 52 em 2018, além de dar ao país o atual campeão do Nacional, Henrique Belumat.

Os feitos obtidos pela Liga Mineira de Legacy se parecem muito com as conquistas de outras ligas regionais Brasil afora. Organizadores independentes, em parcerias com lojas, promovem torneios amigáveis, sem perder o clima de competição saudável, e crescem cada vez mais. Podemos observar idas e vindas, porém a curva é crescente e o Brasil de hoje joga mais Legacy do que ontem. Amanhã pode jogar um pouco menos, mas logo depois volta a crescer. Afinal de contas, as coisas boas duram para sempre. São eternas.

Sobre Fausto de Souza

Fausto de Souza, jogador e colecionador desde 1994. Viciado nas cartinhas e em escrever, tem feito grandes amigos em toda a comunidade e é muito grato por isso.

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